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17 de dezembro de 2010

Capítulo 75: JESUSes...QUAL deles?

“Jesus..es”

Inspirado em “Atheism-The case against God”, por George H. Smith.

Quando ouve falar em Jesus, uma reação natural de um não-cristão seria perguntar:
Qual deles?

A pergunta pode soar absurda, ou mesmo ofensiva, para um cristão, mas é perfeitamente cabível fora do âmbito religioso no qual os cristãos situam o nome e a pessoa de Jesus de Nazaré.
Eu, particularmente, reconheço três “Jesuses” distintos e diferentes entre si, cada um deles sujeitos a outras tantas sub-divisões:

1. O Jesus histórico, o homem que viveu na palestina, liderou um movimento de revisão dentro do judaísmo e sobre o qual praticamente não há registros confiáveis, fora os Evangelhos;

2. O Jesus teológico, que os diferentes concílios cristãos definiram por decreto nos dogmas da divindade e da trindade, passando a considerar heréticas outras leituras do texto bíblico;

3. O Jesus dos evangélicos e fundamentalistas cristãos em geral, uma entidade definida principalmente por experiências pessoais de religiosidade ou de espiritualidade, como geralmente são chamadas pelos crentes em questão.
Jesus Histórico

O Jesus histórico é uma incógnita, investigável apenas pelas técnicas que os historiadores utilizam para, a partir de fatos documentados subseqüentes, rastrear os antecedentes de um determinado fenômeno histórico sobre o qual há poucos registros.
No caso da pessoa humana e real de Jesus, não há evidências arqueológicas definitivas enquanto as citações de historiadores são suspeitas, excessivamente vagas ou não contemporâneas.
Os Evangelhos são considerados e estudados dentro das técnicas da exegese histórica, que se vale de ferramentas diversas, da lingüística à semiótica, para identificar o que é cientificamente válido no conjunto do texto.
De todos os estudos feitos, tem-se por resultado apenas teorias, como as que consideram a possibilidade de Jesus haver sido membro ou dissidente da seita dos essênios, grupo que conduziu um movimento de humanização dentro do judaísmo.

Jesus Teológico
O Jesus teológico é produto de uma complexa combinação de elementos religiosos, filosóficos e sócio-culturais.
Os cristãos primitivos já atribuíam divindade à pessoa do Cristo. Conforme o cristianismo se expandiu como religião, as lideranças cristãs sentiram a necessidade de dar uma definição e explicação única a este dogma, antes que a igreja se fragmentasse em conseqüência das diferentes interpretações.
Os dogmas básicos do cristianismo: a divindade e consubstancialidade de Cristo, foram afirmadas pelo Concílio de Nicéia, no século IV.
As diferentes opções dos bispos entre as resoluções do concílios provocaram o primeiro cisma entre os cristãos, dividindo a igreja entre a facção romana, posteriormente chamada católica apostólica e a facção grega, posteriormente chamada ortodoxa.
No século XVI a Reforma Protestante estabeleceu uma nova divisão, com a novidade de que a nova corrente desautorizou os concílios e decretou que apenas a Bíblia tem autoridade sobre questões religiosas cristãs, mesmo que interpretada individualmente, no que se chamou de sola scriptura.
Não obstante seu caráter revisionista, a maioria das denominações protestantes preservou os dogmas da divindade e consubstancialidade de Cristo, como definidas no Concílio de Nicéia.
O centralismo papal da Igreja Católica Romana impediu outras sub-divisões em seus dogmas, mas os ortodoxos se cindiram em ramos, enquanto os protestantes se fragmentaram em uma infinidade de denominações, muitas vezes conflitantes dogmaticamente entre si.
Cada uma destas sub-divisões cristãs tem sua própria idéia sobre Jesus, a maioria ainda segue Nicéia nos dogmas fundamentais, mas basta comparar as diferenças doutrinárias entre Adventistas do Sétimo Dia e Testemunhas de Jeová (religiões originadas do mesmo tronco do protestantismo) para se constatar o quanto as percepções sobre o tema são distintas.
Assim, o Jesus teológico é uma escolha entre múltiplas, podendo o estudioso não-cristão analisar a consistência filosófica de cada uma delas, mas jamais apontar alguma como verdadeira.

Jesus dos Evangélicos e Fundamentalistas
O Jesus dos evangélicos e fundamentalistas cristãos, em geral, é uma entidade supra-teológica, um conceito pessoal que combina interpretações bíblicas, via sola scriptura, com vínculos emocionais estabelecidos por experiências íntimas de cunho religioso, por eles chamadas de “espirituais”.
É mais fácil para o estudioso não-cristão compreender a religiosidade católica, detalhadamente documentada e justificada dentro de preceitos filosóficos aristotélicos, do que apreender o significado da religiosidade evangélica, particularmente a neo-pentecostal, que dispensa completamente a presença de elementos intelectuais em sua constituição.
Quando um evangélico usa jargões doutrinários, como “conhecer Jesus” ou “aceitar Jesus”, refere-se não a um personagem teológico claramente formatado, e sim a uma entidade mística, inteligível apenas no foro intimo.
O Jesus dos evangélicos esta sempre acompanhado de indistintas sensações e emoções, não raro associadas à idéia de uma revelação sobrenatural nos moldes da narrada por Paulo, no caminho de Damasco.
As dificuldades de comunicação entre não-cristãos e evangélicos são originadas principalmente do fato dos primeiros não conseguirem apreender o significado da entidade Jesus, exaustivamente propagada por eles, enquanto os evangélicos vêem nesta incapacidade um sintoma de “inferioridade espiritual”, “ausência do sinal dos eleitos”, “carência do Espírito Santo” ou coisas do tipo, centrados que são em sua crença de que o cristianismo é a única fé verdadeira e todas as demais devem se submeter a ela ou aceitar a danação eterna.
Assim, o único modo de se compreender um evangélico ou um fundamentalista, e o significado que dão à entidade Jesus, é se convertendo.
É uma questão tipicamente agnóstica a dúvida se Deus é cognoscível ou não.
O Jesus dos evangélicos, com certeza, não é.
A moral provisória de Jesus
As regras de moral estão relacionadas aos costumes de cada povo. Elas nos permitem viver em sociedade, minimizando os conflitos com nossos semelhantes e tornando nossa vida mais fácil. Não são perfeitas, não são absolutas e muito menos imutáveis. Variam com a ocasião, com o lugar, com a época. De um modo geral, aperfeiçoam-se com o tempo.

Diante disto, o que pensar da moral pregada por Jesus? Seria ela o padrão absoluto de excelência, conforme acreditam os cristãos?
Em primeiro lugar, não há como discutir o que Jesus disse. Os filósofos gregos, muito antes dele, debateram a fundo este assunto. Podemos concordar com eles ou não, mas, pelo menos, eles apresentaram suas razões, eles nos deram argumentos que podemos analisar.

Jesus, ao contrário, apenas nos impôs sua doutrina, arbitrariamente, sem maiores explicações, por meio de promessas e ameaças. Ele não era um moralista. Sua missão era anunciar a vinda próxima do Reino de Deus e seu preceito básico era o de que os homens devem se dedicar inteiramente a Deus se quiserem entrar no céu:
“Arrependei-vos, pois o Reino dos Céus está próximo” (Mateus 04:17)
“‘Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?’
Jesus respondeu: ‘Ame ao Senhor seu Deus com todo o seu coração, com toda a sua alma, e com todo o seu entendimento. Esse é o maior e o primeiro mandamento.’ ”(Mateus 22:36-38).
Ou seja, seus mandamentos, em sua maior parte, se referem ao que é preciso fazer para se alcançar a recompensa em outra vida: obediência total e amor compulsório.
Não acreditar nele era o grande pecado:
“Se alguém não os receber bem, e não escutar a palavra de vocês, ao sair dessa casa e dessa cidade, sacudam a poeira dos pés.
Eu garanto a vocês: no dia do julgamento as cidades de Sodoma e Gomorra serão tratadas com menos rigor do que essa cidade.” (Mateus 10-14-15).
Quando Jesus fala em ter fé, ele fala em obedecer sem discutir.
Se aceitamos algo sem analisar, mas apenas porque é o que se exige de nós, em obediência cega, renunciamos à busca da verdade, renunciamos ao uso de nossa mente. Recorrer à razão se torna um pecado.
Embora, em poucos casos, trate das relações interpessoais, sua moral pouco se importa com a melhoria da vida terrena. Isto até que faz sentido: Jesus afirmou que partiria, mas logo voltaria para estabelecer seu reino. Voltaria, de fato, enquanto “alguns dos que o ouviam ainda estivessem vivos” (Marcos 09:01).
Sua moral era uma moral provisória, a ser seguida no pouco tempo de existência que restava ao mundo.
Isto talvez explique por que ninguém se preocupou em registrar sua biografia para que os fatos chegassem às gerações futuras. Não haveria gerações futuras. Apenas décadas depois, quando seus discípulos, desiludidos, se deram conta de que ele só voltaria em futuro incerto e não sabido, é que começaram as tentativas de se produzir uma biografia.
E, como o tempo que restava à humanidade era curto, faziam sentido mandamentos do tipo “abandonar a família, os pais, a mulher e os filhos” ou “vender tudo o que se tem e dar aos pobres” (Lucas 18:22). Ou, um absurdo para os costumes da época, “deixar o pai insepulto e seguir a Jesus”.
Mas… e o Sermão da Montanha, alguns dirão?
Mais uma vez, não passa de promessas a serem cumpridas numa outra vida.
Como é possível se ter uma vida digna se a gente dá a outra face a quem nos bate, se a gente também entrega a camisa a quem nos pediu o casaco, se a gente anda duas milhas quando alguém nos manda andar uma?
Temos, é claro, a “Regra de Ouro”, mas ela nada tem de original. Foi enunciada por Confúcio 500 anos antes de Cristo e já fazia parte da Lei, como o próprio Jesus afirma em Mateus 07:12. Ou “ama teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22:39), que é uma cópia de Levítico 19:18.
Além disto, era uma moral sectarista, limitada às “ovelhas perdidas de Israel”, e o resto da humanidade que se danasse (Marcos 04:10-12, 13:22 e 13:27 ou João 06:37, 44 e 65 ou 17:02 e 06).
Isto fica claro neste trecho:
“Jesus enviou os Doze com estas recomendações: ‘Não tomem o caminho dos pagãos, e não entrem nas cidades dos samaritanos. Vão primeiro às ovelhas perdidas da casa de Israel’” (Mateus 10:05-06)
Ou neste, embora, mais adiante, ele pareça se arrepender da própria grosseria:
“Jesus respondeu: ‘Eu fui mandado somente para as ovelhas perdidas do povo de Israel’. Mas a mulher, aproximando-se, ajoelhou-se diante de Jesus, e começou a implorar: ‘Senhor, ajuda-me’
Jesus lhe disse: ‘Não está certo tirar o pão dos filhos, e jogá-lo aos cachorrinhos’” (Mateus 15: 24-26)
Para piorar, alguns dos mandamentos de Jesus são absurdos, já que exigem que eliminemos nossos sentimentos:
“não olhar para as mulheres com desejo” (Mateus 05:27-28) ou “não sentir raiva do irmão” (Mateus 05:21-22).
Ora, podemos controlar como reagimos a nossos sentimentos, podemos controlar nossas ações, mas não podemos anular nossos sentimentos mais íntimos sem anular nossa personalidade. Entretanto, Jesus declara que até os sentimentos são pecaminosos. Para seguir a Jesus, temos que destruir aquilo que somos, sentimos e pensamos.
Inversamente, ele nos ordena “amar a Deus” e “amar ao próximo”, como se sentimentos pudessem ser ligados ou desligados voluntariamente. Sentimentos surgem a partir de valores que observamos nas pessoas. Se não os observamos, como fazer para despertar esses sentimentos sem mentir para nós mesmos? Mas Jesus não nos dá essas respostas, apenas nos ameaça com castigos eternos se não obedecermos.
Como podemos nos tornar “mansos e humildes” a não ser destruindo nossa autoestima e nossa vontade própria? Por medo do castigo?
Como é possível se contruir uma civilização se o sofrimento é uma virtude, se a prosperidade e a felicidade são condenáveis?
“Felizes de vocês se os homens os odeiam, se os expulsam, os insultam e amaldiçoam o nome de vocês, por causa do Filho do Homem. Alegrem-se nesse dia, pulem de alegria, pois será grande a recompensa de vocês no céu, porque era assim que os antepassados deles tratavam os profetas. Mas, ai de vocês, os ricos, porque já têm a sua consolação! Ai de vocês, que agora têm fartura, porque vão passar fome! Ai de vocês, que agora riem, porque vão ficar aflitos e irão chorar!” (Lucas 06:22-25)
Fica claro que estes eram mandamentos para os poucos anos que ainda restavam ao mundo, e não um guia moral para uma civilização que se estenderia por muitas gerações, indefinidamente. Sua validade é questionável.

A maioria dos principais ditos de Jesus na bíblia, são de conteúdo de uma Filosofia Popular de origem Grega denominada Cinismo, criada 400 anos antes de Jesus por Antisthenes, discípulo de Sócrates. Tinha como base de fundamento que a felicidade não depende de nada externo à própria pessoa, ou seja, coisas materiais, reconhecimento alheio e mesmo a preocupação com a saúde, o sofrimento e a morte, nada disso pode trazer a felicidade. Segundo os *Cínicos, é justamente a libertação de todas essas coisas que pode trazer a felicidade que, uma vez obtida, nunca mais poderia ser perdida.
A semelhança desses ensinamentos de Jesus com a filosofia cínica é estudado por teólogos que nomearam essas semelhanças como Livro "Q", abreviação de uma palavra que significa livro Fonte.

A seguir um dos ditos de Jesus retirado do livro de Lucas que cito como exemplo comparativo de Filosofia Cínica :
"Por isso eu lhes digo: não se preocupem com a vida, quanto ao que vocês vão comer, nem com o corpo, quanto ao que vão vestir. Não será a vida mais que alimento, e o corpo mais que vestuário ? "
Os mesmos ditos aparecem em um outro Evangelho considerado apócrifo, que se trata de um evangelho de ensinamentos - O Evangelho de Tomé.

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